Por Marina Costin Fuser

Acabo de chegar em casa após ter testemunhado um episódio de completa negligência dos seguranças do metrô Consolação, os senhores Cícero (não gravei o último nome) e Luís Gonçalves, que omitiram socorro à menina Laís, de 14 anos, que estava desacordada com uma crise de asma. A amiga que pediu socorro ao funcionário Cícero foi obrigada a carregá-la para fora do metrô pois supostamente “ali não era lugar pra bêbada fazer arruaça.” A “arruaceira” que estava inconsciente nos braços da amiga, era uma menina negra, pobre, de shortinho. A amiga idem. Gente socialmente vulnerável, que estava buscando socorro.

Tenho certeza de que se fosse uma loirinha vestida com roupa cara, eles teriam prestado os primeiros socorros e a conduzido ao hospital, pois eles têm equipamento e foram treinados para isso. Mas precisou que duas mocinhas com cara de que poderiam ser filhas de juiz (no caso nós) fizessem um escândalo. Ligamos para a secretaria da mulher para fazer a denúncia dando os nomes dos seguranças que omitiram socorro na frente deles, e um homem negro se apresentou mostrando a carteira da OAB dizendo que cabe processar o metrô. Só então eles entraram num táxi e conduziram a menina e a amiga para o pronto-socorro. Tentamos chamar o Samu, mas o questionário deles é tão grande que se dependesse deles, ela teria morrido. Dormi mais tranquila sabendo que ela será assistida, mas porque raios eles não a atenderam quando a amiga pediu socorro?

Fico passada quando vejo funcionários do Estado tratando vítimas como culpadas: o estupro é culpa da moça que se veste provocante, bebe e/ou “não tinha nada que estar na rua numa hora dessas…” No caso específico da menina Laís, o que me parecia ter sido o mote dessa culpabilização da vítima foi antes de mais nada ser negra, ser mulher, talvez ter bebido, e no caso, o fato de as duas estarem de shortinho curto. Tudo isso ao mesmo tempo, interseccionalmente. É evidente que a cor já gera o B.O.: a cor de pele associada ao bandido, à prostituta, ao pobre, e a todo um corredor semântico de estigmas sociais que a desautorizam a ser vítima. A colônia dos europeus e a diáspora africana deixaram no Brasil uma chaga aberta, um fascismo que se reatualiza com o Estado e suas instituições e está na base da nossa cultura. Eu não tive estrutura pra lidar com o preconceito gringo no Reino Unido, e tenho dificuldade de elaborar a dor de ter que viver isso no seu próprio país, no espaço familiar. Os negros e as negras no Brasil são guerreiros todos os dias, por aguentar esse fascismo institucional todo e continuar tocando o barco, seguir vivendo.

(arte: Aboudia Abdoulaye Diarrasouba)

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