[Por Marina Costin Fuser]

Ninguém merece ser governado por alguém que não se elegeu democraticamente, mas que lições a esquerda tradicional pode tirar do golpe? O professor e roteitrista Eliseo Altunaga (EICTV, Cuba) deu uma pista: “O cinema se acomodou ao não criticar o governo quando tinha dinheiro. Agora que fecharam a torneira, temos que arcar com as consequências disso…” (não lembro as exatas palavras). Falávamos de cinema, mas vai muito além do cinema. Em muitos sentidos nos acomodamos. Enquanto as coisas pareciam sob controle, abstraímos os acordões que rolavam por cima em nome da governabilidade. Relevamos as alianças grotescas costuradas pelo PT. Trouxemos os parasitas para perto, lhes cedemos cargos. Mas não dá pra dizer que não houve críticas, inclusive no cinema. As críticas foram abafadas, caladas no grito, reprimidas pelas forças armadas e pela tropa de choque, com seu arsenal bélico. Haja gás lacrimogêneo, haja balas de borracha! Como foi tenso esse embate entre as esquerdas! Suprimir vozes do dissenso recobra seu preço quando o momento exige a unidade das esquerdas. Porque na malha fina surgiu uma nova esquerda, que não foi educada com a rigidez hierárquica do Stalinismo. Uma esquerda mais feminista, que questiona os caudilhos que sobem no palanque para gritar no microfone  e a estrutura arcaica da política brasileira. Uma esquerda ecológica, movida pelos direitos das minorias, pela questão indígena, pelo abolicionismo penal, pelo LGBT/queer, pela democracia racial. Uma esquerda que se beneficiou em parte de programas afirmativos do governo, mas que não se acomoda, que quer comida, diversão e arte.

 

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Women’s March em Chicago, fotografia concedida por David Rodowick.

Foram setores espontâneos que se mobilizaram no Brasil para atender ao chamado de Angela Davis, Nancy Fraser e outras feministas envolvidas com a Women’s March, de mulheres trabalhadoras, do Black Lives Matter, de latinas e estudantes universitárias que foram para a rua contra o Trump. Com efeito, a Women’s March repercutiu por vários cantos do mundo, mas não conseguimos nos articular no Brasil. Vivemos um momento muito delicado da nossa arena política, onde nossos direitos trabalhistas vem sendo arrancados, recursos públicos foram congelados pelos próximos 20 anos e não temos mais perspectiva de aposentadoria. A cultura terá que se virar com um orçamento reduzido, e editais já começaram a ser cancelados. A UERJ está marcada para fechar, e tudo indica que não veremos um respiro num futuro próximo, nem no Brasil de Temer, nem nos EUA de Trump, nem na Argentina de Macri, tão pouco na União Europeia que vem se desmantelando com nacionalismos ultraconservadores. Quando tudo parece sem linhas de fuga, surge o extraordinário: multidões vão as ruas para protestar contra o Trump e sua política hostil contra latinos, contra mulheres, contra negros, contra uma ampla maioria de minorias que se somam. A maioria que não ganhou nas urnas por hiatos do sistema eleitoral estaduniodense.

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Women’s March em Oakland, fotografia concedida por Kelly MacEllarney

Os movimentos sociais estão em voga, e isso nos dá esperanças de que nem tudo está perdido, de que juntas somos mais fortes. Urge uma vontade de nos juntar a elas. O “Nenhuma a Menos” na Argentina nos impactou particularmente, pois nós também vivemos uma realidade muito parecida com o cenário de violência sexista da Argentina. O Fórum de Segurança Pública do Brasil constatou em 2014 que uma mulher é violentada a cada 11 minutos. Nos sentimos no mesmo barco. Além das argentinas, prometem aderir à paralisação do 8M  feministas da Austrália, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Checa, Equador, Inglaterra, França, Alemanha, Guatemala, Honduras, Islândia, Irlanda do Norte, Irlanda, Israel, Itália, México, Nicarágua, Peru, Polônia, Rússia, El Salvador, Escócia, Coreia do Sul, Suécia, Togo, Turquia, Uruguai e EUA. O Brasil resolveu entrar na dança, mostrar que temos fibra pra lutar, e que caminhamos junto com elas. Quando senti que havia bastante vontade política para uma paralisação internacional das mulheres, criei um grupo no facebook para nos articularmos nacionalmente. Aos poucos, vários grupos regionais foram pipocando pelo Brasil. Depois descobri que já haviam criado uma página do 8M, também por iniciativa independente de Mariana Bastos e suas companheiras, não ligadas a partidos, mas com vontade de mobilizar. Nos juntamos de pronto, e de repente em menos de 48 horas, já havia 5 mil membros no grupo do facebook, interagindo com bastante dinamismo.

 

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Women’s March em Nova York, fotografia concedida por Melissa Nadroj.

 


Ao tentar unificar com o setor que ano após ano constrói as passeatas do 8 de março em ocasião do dia internacional das mulheres, a Marcha Mundial de Mulheres, grupo dirigido predominantemente pelo PC do B e por alguns setores do PT ligados à cúpula da burocracia da CUT, demos com a cara na parede. Segundo uma delas, a CUT tem em sua agenda o dia 15/03 como data de indicativo de greve. Em vez de se somar à paralisação internacional das mulheres, elas defendem um ato na Praça da Sé contra a reforma da previdência. Numa reunião aberta, que foi pouco divulgada nas redes sociais, alertei que apesar de considerar a questão da previdência de suma importância, isso por si só não mobiliza a juventude a ir pra rua. Precisamos de um eixo mais amplo. Minha fala não foi respeitada, foi distorcida, e respondida por  uma burocrata do PC do B que me intimidava gritando no microfone e apontando o dedo na minha cara enquanto eu ria de nervoso. Preferi calar-me, pois me senti intimidada,  e pedi para que outra colega que também defendia a paralisação falasse no meu lugar na defesa das posições. A mesa sequer encaminhou para votação as propostas! Marcaram o percurso do ato longe da Paulista, onde ocorrerá a assembleia dos professores, categoria composta 80%  por mulheres.  As professoras já se posicionaram pela paralisação – que entre outros eixos específicos da categoria, inclui a paralisação internacional das mulheres.

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O impasse gerado na reunião oficial da burocracia da Marcha nos levou a nos organizarmos por fora, de modo independente. Outros coletivos feministas da Grande São Paulo vem se somando a nós, por acreditarem na importância de organizar uma paralisação internacional de mulheres. No resto do Brasil, a unidade entre setores independentes e a esquerda tradicional conseguiram chegar em acordos. Marcharão juntas. Em São Paulo isso não foi possível, mas seguimos buscando criar interlocuções possíveis com setores mais amplos, organizados ou não em partidos, entidades, etc. Sabemos que a paralisação será parcial, que nem todas as mulheres têm condições de interromper sua jornada de trabalho. Mas há outras formas de aderir à paralisação, seja numa postura simbólica de solidariedade passiva, seja parando os serviços domésticos, por exemplo. Marcamos o ato para se concentrar às 16:00 no MASP  e sair por volta das 17:00 estrategicamente para dar tempo para mulheres que não puderam parar no serviço possam se juntar a nós. Se a CUT mantiver o dia 15 como indicativo de greve do setor público, poderemos criar um clima de greve a partir dessa paralisação das mulheres, abrindo discussões com a base da sociedade civil e trabalhista. Será maravilhoso se  forem as mulheres a dar início ao movimento de greve do funcionalismo público.

Há uma vontade de unidade, de superar essas rusgas, potencializar nossas forças sem calar dissensos, criando uma unidade a partir de consensos mínimos e pontuais.  O  movimento não é vertical, ele gira em roda. Estamos sendo atacadas de diversas frentes, como a usurpação de direitos fundamentais como a previdência, a secretaria de políticas públicas para mulheres foi fechada, o eixo do discurso dos deputados e senadores que deram o golpe que derrubou a primeira presidente mulher da nossa história foi a família nuclear. “Em nome da família” é uma resposta que está comprometida com um modelo de família que exclui laços homoafetivos, relações não monogâmicas, a liberdade de uma mulher não querer casar e ter filhos, etc. Ninguém se elege no Brasil se falar em legalização do aborto. As mulheres negras, que estão na base da pirâmide socioeconômica, são as mais vulneráveis às crises do capitalismo, as que têm seus filhos assassinados pela PM, e ocupam os postos mais precários de trabalho. As mulheres lésbicas são invisibilizadas. As pautas que envolvem as mulheres são muitas e urgentes. Estamos nos propondo a modificar as bases da cultura, uma luta mais abstrata que as especificidades de nossas bandeiras, mas o que nos unifica é afirmar a potência e a independência da mulher, de nossas batalhas anteriores e futuras que permeia nossa existência: o feminismo, a equidade de gênero. Podemos caminhar juntas mesmo pensando diferente? Podemos caminhar juntas sem que uma tente passar na frente, ou estique o pé pra outra cair?  Se é a unidade o que aspiramos, vamos caminhar lado a lado, gritando juntas nosso coro dissonante.

*

Quem quiser somar e ajudar na divulgação será bem-vinda. Aqui todas mulheres importam.

Link do evento do facebook:

https://www.facebook.com/events/1872567573029232/?notif_t=plan_user_joined&notif_id=1487889968065313

 

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