…E algumas fontes bibliográficas    .

[por Marina Costin Fuser]

A luta por mais espaços para mulheres diretoras, para diretoras de fotografia, para roteiristas e críticas de cinema é fundamental para potencializar e equilibrar os pontos de vista de quem faz e elabora sobre o cinema. Mas essa discussão vai muito além de quantificar espaços. Os números são questões corporativas, e não por isso menos importantes, a saber, precisamos de mais mulheres fazendo cinema, escrevendo sobre cinema. Mas também temos que dar um salto qualitativo, para a crítica da representação dos corpos e complexidades da narrativa fílmica. Para colocar em suspeita os paradigmas da crítica sob um viés de gênero.  Para não termos medo de incorporar essa palavra tão blasfemada, tão ridicularizada ao longo da história, que é o feminismo.

 

Daisies, directed by Věra Chytilová (1966)

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Eis o salto qualitativo que tem sido postergado nos novos movimentos que reivindicam mais espaço para mulheres no cinema: a politização da estética e a estetização da política, para colocar nas palavras do filósofo Walter Benjamin. No caso, o feminismo urge como algo que vai muito além disso que chamam de “papel feminino” no cinema. Falamos feminino para designar “de mulheres” porque a sociedade é heteronormativa, e a heteronormatividade ignora os deslocamentos do feminino e do masculino, se atendo a gêneros como classificações fixas e monolíticas e sempre binárias. Destituir cânones socialmente edificados  sobre corpos implica em desmantelar essas categorias, borrar fronteiras, realinhar as finas angulares que demarcam corpos e relações de poder que delimitam quem pode elaborar sobre corpos. O feminismo não é um formato acabado, como receita de bolo: há várias abordagens, várias reflexões possíveis. Já que este caminho foi trilhado por gerações anteriores, aos trancos e barrancos, acertos e erros, não precisamos começar do zero. Seria interessante nos apropriar das reflexões de três ondas feministas acerca de corporalidades, de paradigmas que envolvem a representação dos corpos de mulheres.

Não obstante, não basta ser mulher para deslocar o olhar que objetifica mulheres. Se fosse este o caso Tizuka Yamasaki e Marlene Mattos não teriam feito o Xou da Xuxa da maneira que fizeram. Não basta ser mulher para interpretar um filme com um olhar atento à representação de corpos de mulheres no cinema. Creio que precisamos garimpar mais, estudar mais, para refletir mais a fundo sobre a representação dos nossos corpos. Isso vai além da representatividade de mulheres numa dada categoria. Faz sentido inclusive incorporar os homens nesse processo de deslocamento do olhar sobre mulheres. Sem estabelecer parcerias produtivas com nossos colegas, parcerias que se proponham a girar o olhar do cinema, não conseguiremos alcançar a equidade de gênero, o eixo central da luta feminista. Para uma prática mais avançada, tanto na realização, como na escrita do cinema é preciso mais teoria. Teoria e prática se complementam, se alimentam e possibilitam que as mulheres sejam pensadas a partir de ângulos mais potentes, de devires que se multiplicam em miríades, de olhares emancipados.

Como criticar só não basta, é preciso fazer melhor, deixo aqui alguns links pras mulheres que querem ampliar o repertório teórico e crítico do cinema sob um viés feminista:

– Laura Mulvey: Prazer Visual e Cinema Narrativo na Experiência do Cinema

http://docslide.com.br/documents/mulvey-laura-prazer-visual-e-cinema-narrativo-na-experiencia-do-cinema.html

– Rosalind Galt: Lindo: teoria do cinema, estética e a história da imagem incômoda:

file:///C:/Users/DELL-MARINA/Downloads/2762-5808-1-SM%20(1).pdf

– Teresa di Lauretis: A Tecnologia do Gênero:

http://marcoaureliosc.com.br/cineantropo/lauretis.pdf

– Trinh T. Minh-ha: Não Você / Como Você:

http://agre.st/edicao/1/Nao_voce_Como_voce/

– Sue Thornham: “Um ódio tão intenso…”Temos que falar sobre Kelvin:

http://estudosculturais.com/revistalusofona/index.php/rlec/article/view/199

– Karla Bessa: “Um teto por si mesma”: multidimensões da imagem-som sob uma perspectiva feminista-queer:

http://www.artcultura.inhis.ufu.br/PDF30/9_Um_teto_por_si_mesma.pdf

– Linda Williams: Screening Sex* Revelando e dissimulando o sexo:

http://www.scielo.br/pdf/cpa/n38/n38a02.pdf

– Alessandra Brandão e Ramayana Lira: Mulheres que se (co)movem: cartografias queer latino-americanas:

http://www.asaeca.org/imagofagia/index.php/imagofagia/article/view/325

–  Ana Catarina Pereira: A mulher-cineasta: da arte pela arte a uma  estética da diferenciação:

http://site.ufvjm.edu.br/revistamultidisciplinar/files/2014/10/A-mulher-cineasta-Da-arte-pela-arte-a-uma-est%C3%A9tica-da-diferencia%C3%A7%C3%A3o.pdf

  
Em Cinema, Globalização e Interculturalidade de Andréa França e Denílson Lopes tem artigos da Laura Marks, da Rosanna Maule, entre outros que tratam de gênero e alteridades:

https://www.academia.edu/9063398/O_cinema_intercultural_na_era_da_globaliza%C3%A7%C3%A3o

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