[por Marina Costin Fuser]

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Kinoko Hajime

Não precisa ser feminista para constatar que a pornografia tradicional é um laboratório de sexismo.  A indústria pornô no geral segue um compêndio de ângulos e posições que ritualizam o ato sexual através do machismo posto em imagens, sons e performances que empobrecem o ato. O prazer da mulher se reduz a dar prazer ao homem.

Há, porém, fissuras nesse prontuário, vias de fuga por onde penetra a libido de mulheres. Inclusive não podemos assumir que as divas pornôs não sintam prazer dentro daqueles planos mais padronizados. Por mais que haja opressão na pornografia, pornografia não é apenas opressão. Mesmo o pornô convencional pode ser libertador de uma libido, e instigar fantasias.

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Arte de Clube de Garotas

Por mais machista que seja o pornô convencional, penso que não caiba às feministas condenar quem se mostra ou quem assiste.  O exibicionismo e o voyeurismo já são condenados pela Igreja. Penso eu que não precisamos reforçar a castração do desejo. Creio que seja mais interessante criticar o sexismo da indústria pornô, e aprofundar críticas específicas no campo da análise fílmica. Isso implica em dissecar a pornografia, e demonstrar de que modo o filme subjuga a mulher e seus desejos. Fizemos isso no ano que passei pesquisando em Berkeley com a professora Linda Williams, uma pornógrafa feminista interessantíssima. Passávamos as tardes de sexta-feira em uma sala cheia de feministas acadêmicas (e alguns caras corajosos) assistindo pornô. Não vou entrar em detalhes, mas aprendi que em vez de cair numa lógica proibicionista, é mais eficaz encorajar realizadoras (es) a desviar  os ângulos, criar outras abordagens, que possam ser mais interessantes inclusive para um público mais amplo. Muita gente não assiste pornô por acha-lo sem graça e repetitivo.

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Arte de Favim.

Hoje há grupos que fazem pornografia nessa pegada, inclusive feministas afim de enfatizar mais o prazer de mulheres em relações heterossexuais, lésbicas cansadas de ver o lesbianismo objetificado por héteros, além de queers, gays, trans, etc. São cinemas marginais, mas há espaço, público e vontade para expandir.  Mas tem que haver consentimento, entre adultos em sã consciência. Revenge porn são outros 500, pois toda exposição não consentida é uma violência.

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Arte de Pierre Schmidt
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2 thoughts on “Por que, e em que sentido, algumas feministas não condenam a pornografia?

  1. Marina, muito interessante o ponto de vista. Eu me pego muito sem saber pra onde ir em relação às indústria pornográfica e às produções como um todo. Tenho um pouco de resistência em encontrar formas de não-exploracao feminina. Algumas poucas vezes li sobre pornô feminino e etc, mas bem esporádico. É importantíssimo pensar sobre isso. Gostaria de ler mais, inclusive. Outro dia me perguntaram e eu disse o que penso, que não gosto por vários motivos, dentre eles a infantilizacao de mulheres, o prazer dominado, etc…

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  2. Pensamos o mesmo. Pornografia geralmente é tosca demais, sem criatividade e sexista ao extremo. Ela educa crianças e adolescentes curiosos a entender sexo naquele formato machista. E das buscas mais populares no Brasil está a palavra “novinha”, ou seja, crianças e adolescentes. Isso sem falar em casos de revenge porn e estupros filmados… A indústria pornográfica produz opressões das mais tacanhas.

    Mas será que adianta proibir? Porque ao proibir a pornografia, cerceamos também o gozo, a fantasia audiovizualizada. Temos que negociar sentidos e denunciar exatamente aquilo que é opressor na pornografia, não o exibicionismo/voyeurismo. Sobre a pornografia feminista, recomendo Watermelon Woman (é mais erótico do que porn mas essa diferenciação é complicada) da Cheryl Dunye e tem um documentário feito pela própria Linda Williams com o título Pornography… alguma coisa, que é incrível. Mas tem cada vez mais filmes pornôs voltados para o prazer das mulheres circulando na web. Em São Paulo rola o Festival PopPorn, que é muito da hora. Beijos

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