Michelle

 

[por Marina Costin Fuser]

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Favorito da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ELLE é um filme tecnicamente muito bem feito. A abertura do filme já diz ao que ele veio: a Michelle (Isabelle Huppert) deitada no chão com um homem de preto encapuzado em cima dela. Ele se levanta, termina de vestir a calça e sai de cena. A câmera é posicionada como um voyeur que está por perto, mas há um distanciamento que permite uma visão de testemunhas ocultos do evento, que se repete várias vezes no decorrer da narrativa. Com efeito, o estupro é o eixo em torno do qual se desenvolve o arco da narrativa, que além de constituir o conflito que atormenta a protagonista, ele é salientado por tramas secundárias, tal como, por exemplo, o videogame hiper-realista, no qual um monstro fura o cérebro de uma mulher com seus tentáculos. A violência do game é visceral e perturbadora, numa resolução quase perfeita, que cria a ilusão de uma agressão real (que soa como uma paródia do filme). Michelle contesta, chamando atenção de seu funcionário para tornar as convulsões orgásticas menos tímidas. Ela quer mais violência, mais sangue. Mais tarde algum colega de trabalho edita a imagem da mulher com o rosto da protagonista, que soa como uma ameaça, e possivelmente um souvenir do ocorrido. Mas quando indagada sobre porque ela não fez queixa na polícia, ela responde sem titubear: “Eu já fui a vítima uma vez”. Mas ela é constantemente lembrada disso pelas mensagens lascivas  de seu agressor. Ela se alude ao autor das mensagens como um “admirador secreto”, que lhe agrada ao dizer que ela é “gostosa para alguém de sua idade”.

Algumas características peculiares da protagonista dão espessura à complexidade da personagem, que é uma chefe durona, detestada por quase todos os funcionários da empresa por seu tom altivo, quase despótico. No momento que ela aconselha seu ex-marido e amigo em sua vida amorosa, ela não me parece entusiasmada com o feminismo: “Uma mulher que lê Beauvoir vai te dizimar.” As mulheres no filme são personagens mais imponentes que os homens no enredo: a esposa de seu filho que parece assumir o comando da vida do rapaz, substituindo possivelmente o lugar da mãe, a atual namorada do ex-marido,  mais madura e bem resolvida do que ele, além da própria protagonista, que escapa do clichê de mulher frágil, ou fragilizada neste lugar de vítima. Os homens são paspalhões, submissos, e bastante covardes. Não obstante, o deslocamento do lugar de vítima para o de mulher “empoderada” se dá pelo frio desejo que ela desenvolve por seu agressor. O voyeurismo do espectador através da câmera que testemunha o ato  é substituído por um par de binóculos, através do qual olhamos com a tela bifurcada em dois círculos, seguido de um close-up da mulher espiando seu vizinho com o dispositivo de vigilância. Os sons de prazer, que a princípio parecem estar do outro lado das lentes, estão na realidade do lado de quem observa a família do vizinho montando um presépio no jardim. O deslocamento do prazer entre o sagrado e o profano, a família e a masturbação de uma mulher, o de dentro e o de fora, torna o filme cheio de camadas, lapidadas em pedra fria de um inverno que habita o imaginário da personagem, que após ser estuprada toma café com o filho, como se nada tivesse ocorrido. Frio é o ato em si, violento, súbito e voraz. Por outro lado a repetição vai pouco a pouco alterando a própria natureza do ato, sugerindo que o sadismo do estuprador conta com a cumplicidade da vítima, a outra faceta masoquista, como um dueto de forças complementares.  Não se trata de um prazer consentido, mas de uma participação ambígua da vítima, que parece gostar da experiência. Ela toma medidas para se proteger: compra spray de pimenta, aprende a atirar, troca a fechadura da porta… Mas até mesmo seus gritos passam a soar ambíguos, entre o horror e o gozo. Quando cai a máscara do verdugo, isso fica evidente, mas paro por aqui.

   Sem dúvida, há qualidade fílmica em ELLE: os poéticos planos entre o  estupro e o gato que passeia pela casa e assiste ao episódio com curiosidade, a ironia do nascimento do neto com a pele visivelmente mais escura do que os pais, atravessada pelo reflexo de um homem negro com um riso malicioso na sala de espera. A saber, Huppert está fantástica no papel, os personagens são complexos e bem estruturados, o tratamento das imagens e as transições seguem um fio consistente que amarra a narrativa. Se na cena em que ela avalia o videogame, em que ela diz que faltou sangue quente, o plano-sequência tem continuidade com Michelle tirando sangue no hospital.  O clamor pelo sangue quente, à vista, decorre um desejo frio que se encerra no íntimo. Este desejo contido que transborda apazigua o conflito, joga panos quentes. O desfecho não dá conta da complexidade do conflito instaurado, resolvendo de maneira forçada um crime que o filme inteiro trata de justificar. A conversa entre duas mulheres no final parece uma tentativa do diretor de se redimir após ter perdoado o malfeitor. Se este não escapa ao seu destino implacável, ele é agraciado pela libido que torna o estupro um ato dúbio.

   É precisamente neste ponto que a crise se instaura, pois esta margem que se abre, dando vazão a múltiplas interpretações, provoca um mal-estar na plateia. É sempre interessante assistir filmes que suscitam mais de um ângulo interpretativo, mas no caso o filme atravessa uma linha perigosa.   Esta linha turva e cheia de nós que chamamos consentimento, quando posta em suspense, torna a vítima cúmplice de um ato pecaminoso, contrariando os princípios cristãos em pleno natal. O mal-estar decorre desta inversão, que é naturalizada de maneira bastante trivial em casos de estupro. É difícil falar deste incômodo, quando o filme é celebrado pela crítica, mas pouco a pouco algumas vozes do dissenso vão surgindo nas redes… O filme premiado da Mostra paulista faz mais do que por o dedo na ferida de mulheres que foram vítimas de estupro, mas a cutuca com lâmina fina através da repetição de uma cena de intensa violência. O diretor não tem como saber quais traumas o espectador leva para o cinema.  Mas brincar com o fogo que deixou marcas tão difíceis de cicatrizar é algo que demanda um cuidado, uma sensibilidade que em ELLE deixa a desejar. No caso brasileiro, um país onde  só em 2015 foram reportados entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no país, ou seja, um estupro a cada 11 minutos (Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública).  Com efeito, este quadro pode influir sobre a recepção da obra.  Eu mesma fui vítima desse tipo de violência, o que me fez sentir o filme como um soco no estômago. O filme atravessou meu corpo, e me desestabilizou, por trazer de volta uma memória viva. A repetição do estupro foi pra mim como uma tortura, que não é aliviada à medida que as premissas vão se invertendo, revelando um desejo masoquista de Michelle. De modo que a última cena já não oferece uma rota de fuga. O mal-estar permanece.

   As mulheres que se atrevem a criticar o filme nas redes (até agora só vi mulheres…), tiveram que ouvir que “não entenderam o filme”, ou que o filme não pode ser censurado (com  o se questionar um filme premiado seria uma censura). Quando muito, dizem que os homens do filme são personagens fracos, enquanto as mulheres são “fortes”. As personagens mulheres no filme correspondem a tipificações caricatas feita por homens: a protagonista é uma sociopata fria e despótica, uma chefe durona e uma mãe insensível. A namorada de seu filho é uma caça-níqueis manipuladora, que dá luz a um filho de paternidade duvidosa. A mãe da protagonista é uma senhora que não aceita a idade que tem, recebe em sua casa um garoto de programa e gasta seu dinheiro com botox. A esposa do vizinho é uma sonsa, aparentemente frígida. Para a cineasta Beatriz Seigner, “ELLE é a fantasia machista de que a vítima, no fundo, queria ser estuprada.” Ao escrever isso no facebook, isso gerou um imenso debate entre a diretora e os árduos defensores da última pérola de Paul Verhoeven, o diretor de épicos hipermasculinos, tais como Robocop, Vingador do Futuro, Tropas Estrelares, etc. Seigner diz que na sessão que ela assistiu, dava para escutar vozes de homens rindo quando a cena de estupro passava na tela. Ela admite: “o filme foi feito com maestria”. Por outro lado: “Ele parece reforçar esta tese/visão de mundo de que a mulher estuprada desejava ter relações sexuais com o seu estuprador – o que é um baita desserviço às lutas que tentam acabar com a cultura do estupro, no qual, muitas vezes, o homem se justifica desta maneira ‘ela queria’. (e o fato da personagem ser bem sucedida profissional e financeiramente, liberal sexualmente, e ter um trauma de infância que justifique sua síndrome de Estocolmo só servem no roteiro para fazer parecer que ela não é vítima do estuprador…” (houve o consentimento da autora para citá-la). Devo ressaltar que num filme nada acontece por acaso. O roteiro é escrito não por um, mas por três homens: David Birke, Harold Manning, e Philippe Dijan, que criam a psiqué dos personagens, suas espessuras, seus excessos, seus mais recônditos fantasmas. São os roteiristas que decidem sobre o desejo e sobre a sorte da vítima, que só toma corpo quando Huppert entra no set. Cabe questionar por que os roteiristas conscientemente escolhem colocar este desejo na vítima.

   Me parece que ELLE não foi o único filme a tratar do tema de estupro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. De acordo com a crítica Samantha Brasil, dos 33 filmes que ela assistiu ao longo dos dez dias em que ela esteve na mostra, “doze (ou seja 1/3) tinham o estupro como tema central ou como plot para desenvolver o arco dramático de algum personagem. Desses 12, ONZE foram dirigidos por homens. E ainda querem nos fazer acreditar que não existe uma cultura do estupro institucionalizada. Destes 33 filmes vistos, 11 foram dirigidos por mulheres e 22 foram dirigidos por homens. Ou seja, metade dos filmes dirigidos por homens que eu selecionei para assistir dentro da programação da Mostra giravam em torno de uma cena de estupro. Quase todos foram premiados em festivais internacionais importantes.” (publicado nas redes e autorizado pela autora). O fato de ELLE estar na mostra não é em si ruim, mas o contexto em que o filme foi inserido, entre um festival de estupros na tela aponta uma escolha pouco refletida em termos de gênero, à medida que subestima os efeitos que esse tipo de filme produz sobre sua plateia, e principalmente sobre as mulheres, que já sofreram ou temem sofrer esse tipo de violência. Numa mostra com filmes excelentes, por que raios o premiado número 1 do júri foi exatamente um filme que justifica um estupro? Deixo isso pra vocês refletirem.

 

 

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One thought on “Tudo em nome da Arte: O premiado da mostra de SP fetichiza o estupro

  1. Total. E tem uma moral escrota no fim do filme: Olha… tá vendo, foi bom ela ser estuprada, ela conseguiu dar a volta por cima, tomou coragem para fazer coisas que ela não fazia, tipo, contar à amiga q era amante do marido dela, ter uma conversa séria com o filho, falar que vai à policia… olha que bom. A personagem dá um salto no fim e pra melhor graças ao estupro. Portanto, tudo bem. pode estuprar, que além de gostar, vai fazer bem pra ela. detestei o filme. desserviço para a humanidade.

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