[Por Bruna Provazi]

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“Até hoje ninguém se interessou pela minha história. A única razão pela qual todos se interessaram por mim é porque fui casada com Neal Cassady e amante de Jack Kerouac. Então vamos falar sobre isso. Não é o que trouxe vocês até aqui, afinal de contas?”, declara uma perspicaz senhora de 88 anos à equipe de filmagem. Dizem que a primeira frase de um documentário é a mais importante, e certamente não haveria melhor maneira de introduzir o filme “Com amor, Carolyn” (“Always love, Carolyn”, 2011). De fato, com essa abertura as diretoras suecas Malin Korkeasalo e Maria Ramström parecem apresentar sua justificativa para as escolhas narrativas que virão a seguir.

Esposa, amante, mãe de família, matriarca. É em busca de resquícios das memórias da musa inspiradora beat e dos pequenos tesouros históricos guardados com ela que parte o documentário inspirado no livro autobiográfico “Off the road: twenty years with Cassady, Kerouac and Ginsberg (“Fora da estrada: 20 anos com Cassady, Kerouac e Ginsberg”).

Foto: Divulgação (“Always love, Carolyn”).0a

Partimos então de suas origens, da criação rígida da família, até surgirem lembranças mais íntimas da infância, como um relato de abuso sexual pelo irmão. Aos 16 anos, a jovem Carolyn decide sair de casa para estudar Artes, quando conhece o grande amor de sua vida: Neal Cassady, anti-herói eternizado no personagem Dean Moriaty do livro clássico de Jack Kerouac, “On the road” (“Pé na estrada”).

Porém, as informações sobre a vida de Carolyn como artista e escritora não irão além de lampejos no longa, em menções sempre devidamente conectadas com as biografias de Neal e Jack. O restante é uma remexida em lembranças dos dois verdadeiros protagonistas do filme: como eles eram, como era sua vida juntos, como ela conseguiu criar sozinha os três filhos do casal. O tempo inteiro Carolyn Cassady, mais conhecida como a personagem Camille de “On the road”, confessa ter escrito sua autobiografia por estar cansada de ter que responder a esse tipo de perguntas. Entretanto, é atrás dessas mesmas respostas que o documentário vai se basear, ainda que com um evidente tom de criticidade à indústria cultural pop.

Carolyn Cassady, Foto: Rick McGinnis, 1990.
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No filme “Heart Beat” (1980), drama dirigido por John Byrum e supostamente narrado por Carolyn, o que vemos é uma versão um tanto romantizada do trio Neal-Carolyn-Jack. Apesar de o roteiro do filme ter sido baseado na autobiografia homônima publicada por ela em 1976, a própria autora declarou que se sentia infeliz com a adaptação cinematográfica de seu livro. Já ao assistir ao documentário sueco “Always love, Carolyn”, temos acesso a outra versão da história, narrada pela única sobrevivente do núcleo central de “On the road”, então uma senhora de quase 90 anos, lúcida e com um humor ácido capaz de deixar sem palavras os jornalistas mais desavisados.

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Foto: Divulgação (“Always love, Carolyn”).

Na versão ficcionalizada de Byrum, a jovem estudante flerta com ambos, Neal e Jack, desde a primeira vista. Já no documentário, a protagonista, já anciã, revela que só começou a se relacionar com Jack a pedido do próprio Neal. Seria necessário ler sua autobiografia para tirar maiores conclusões, mas certamente esse é um aspecto de menor importância diante do conjunto da obra. O aspecto mais importante é que, tanto no livro quanto no filme, Carolyn resolveu finalmente contar sua própria versão dos fatos. “O Neal que eu conheci era diferente do Neal que Allen Ginsberg conheceu”, afirma em determinado trecho.

Durante todo o documentário, salta aos olhos a verdadeira devoção sentimental que tinha por Cassady. Mesmo conhecendo bem os defeitos do marido, a jovem sempre acabava cedendo a suas vontades “por amor”. Exemplo disso é o episódio em que ele sai no meio da noite de seu aniversário para resgatar Jack da prisão e ambos voltam para casa drogados e acompanhados de uma prostituta. Ao contrário do que ambos esperavam, Carolyn não os expulsa de casa, pois, como conta no doc., “de que adiantaria?”. Talvez o exemplo mais forte seja quando Neal resolve se embrenhar na viagem sem rumo que originou o livro clássico de Kerouac, deixando Carolyn sozinha com um bebê para cuidar. A única exceção acontece no momento em que o marido fora-da-lei é condenado a cinco anos de prisão devido a porte de maconha e lhe pede que venda a casa para pagar sua fiança. Com três filhos pequenos, isolada e deserdada da família, ela toma a difícil decisão que qualquer mãe na mesma situação tomaria.

Do outro lado da balança temos homens celebrados por viverem uma vida aparentemente libertária, sem limites e sem compromissos, mesmo que isso inclua abandonar sua companheira com três filhos pequenos pra criar. Onde será que está o glamour nisso tudo? Negar radicalmente os valores de uma sociedade capitalista doente é um ato realmente inspirador, mas até quando a cultura pop continuará cultuando os caras por serem uns bostas? Já escrevi aqui sobre meu incômodo com a forma pela qual a idolatrada geração beat tratava as mulheres (On the road: na fronteira entre a transgressão e o patriarcado), e isso ficou ainda mais explícito após assistir a esses dois longa-metragens.

Ainda que seja louvável a tentativa de apresentar aspectos da vida da escritora desconhecidos do grande público, as diretoras parecem ter perdido talvez uma oportunidade única de reparar sua invisibilidade na história toda. Afinal, sobre o que sabemos a respeito das mulheres da geração beat? Por que a vida de uma jovem que saiu de casa aos 16 anos para estudar Artes e que fazia parte daquele universo tão transgressor se resumiu, nos registros históricos e literários, ao papel de musa? Afinal, quem era Carolyn? Como ela mesma disse em diversos momentos do filme, se dirigindo aos jornalistas mais preguiçosos: “Está no meu livro. Foi pra isso que o escrevi”. A depender do filme, continuaremos sem saber.

Carolyn faleceu em 2013, aos 90 anos, em Brecknell (Reino Unido), durante uma cirurgia de retirada do apêndice.

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