[por Lídia Mello]

“O tempo serve para ordenar nossos pensamentos, eu realmente tenho medo do mundo quando penso na eternidade sempre em atividade”.

szasz_janos_woyzeck

Woyzeck (1994) de János Szász: Que estética esplêndida de Szász! Uma atmosfera noir, uma fotografia pictórica, o contraste forte do branco e preto, o preto mais preto que o natural, as locações desertas da geografia húngara. O diretor húngaro explora o cotidiano massacrante da vida simples e humilhante de Woyzeck, um pobre trabalhador de um estação de trem que parece não levar ninguém a lugar nenhum, a miséria e abandono humano estão impiedosamente estampados na tela filmica, a neve cai incessante atravessando os trilhos do trem que insiste em passar num vilarejo perdido no tempo.

Enquadramentos inusitados ora espremendo Woyzeck em sua solidão, ora planos abertos mostrando o vazio dos lugares povoados de nada, uns plongés reduzindo qualquer potência na vida desse homem que passa o dia a dizer sim ao chefe na estação de trem, vive numa minúscula casa de um bairro cigano, e espera a noite em busca de parcos e efêmeros momentos de prazer, espera para ver Maria, sua suposta companheira, quase prostituta, uma jovem cigana, uma jovem mãe em depressão, melancólica, e que carrega em si um mistério e quase uma maldição, uma mulher literalmente fodida, distante de tudo e dela mesma e que perambula na existência abandonada ao destino de homens em meio a um frio aterrorizante que não da trégua a seu corpo. Como cabe tanto sofrimento dentro desse homem e dessa mulher?

Resignados, suportam a dor do mundo, não há nada em que possam crer, sucumbem a uma vida que pouco tem a lhes oferecer, impossível ter alguma esperança, ate porque segundo Espinosa a esperança é um sinal de impotência do ser. De que são feitos os dias destes seres? De muito desgosto, silêncio, pesar, desamor, de um imenso e tenebroso nada, envolvidos de uma sonoridade quase litúrgica. Woyzeck, é ele próprio uma espécie de ser nenhum.

Até que um dia ele chega em casa com a criança de Maria nos braços e a encontra num momento de prazer com um homem, um policial; triste e envergonhado Woyzeck se isola escondendo debaixo das engrenagens de um trem, seu chefe o encontra e o traz de volta ao trabalho. Ele retoma a contragosto seu modo hesitante de estar na vida, uma vida como um espelho quebrado em mil pedaços, não suportando tanto mal estar; János Szász nos dá a entender que Woyzeck, põe fim a vida do chefe ao fazer sua barba, depois ele vai ao encontro de Maria, que está com seu amante, o policial, eles dançam em meio a muitas pessoas numa cantoria de ciganos, a musica acaba, todos se vão, restando apenas os três. Woyzeck diz a Maria que hora de partir, em vão ela indaga para onde, mas não faz resistência e sai com ele. Sentam-se no chão de um lugar de puro breu e se põem a contemplar a escuridão da noite. Em Woyzeck havia muita magoa guardada, depois de toda sua ira, da boca de Woyzeck ouvimos: Mindennek vége, vége van, Está tudo acabado, está acabado!

Ha neste filme certa similitude com a estética do cinema do Béla Tarr, em especial, com ”Damnation” (1987).

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