[por Marina Costin Fuser]

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Marina Fuser no set de Black is Blue, de Cheryl Dunye.

Não curti muito descobrir que no Brasil tem umas panelinhas acadêmicas que se entendem os autênticos donos do queer. Foi num painel queer de uma conferência internacional sobre sexualidades que me surpreendi com a condescendência do meliante, ao qual dirigi um elogio:

– Só queria te parabenizar. Gostei da sua apresentação.
– Obrigado. Você faz doutorado em que universidade mesmo?
– Em Sussex, com sanduíche em Berkeley. E você?
– Sei. Sou doutor em Antropologia pela USP. Mas o que você pesquisa mesmo?
– Pesquiso o nomadismo no cinema da Trinh T. Minh-ha.
– Foi o meu núcleo que a trouxe para o Brasil.
– Que legal, eu entrei em contato com o cinema dela no Brasil mesmo, quando ela veio pro Fazendo Gênero em Santa Catarina.
– Nós trouxemos ela muito antes do que isso.
– Que bom pra você!
– Desde quando você se interessa pelo queer?
– Desde que li Gender Trouble em 2007, mas trabalho com esta abordagem desde 2011, a partir de um curso que fiz num grupo de consciência queer na NYU.
– Quer dizer que você se vende no shopping queer?
– Dou cursos sobre o queer no cinema, mas não me coloco a venda não, e muito menos com uma embalagem queer.
– Também dou cursos de cinema queer. Eu também me vendo no shopping queer.
– Não entendo queer como shopping. É uma ponte que liga identidades, desejos, afetos, existências…
– Virou shopping! Tá assim de gente heteronormativa querendo se vender no shopping queer.
– Me diz onde é que tá a grana porque os queer tão todos quebrados!

Será que o cara confundiu QUEER com QUEEN?

Ora, não me diga que o queer virou shopping? E o feminismo não? E o LGBT? E o ambientalismo? Até mesmo o Che Guevara, pasmen, virou estampa de biquini da C&A! Qual movimento social não virou shopping? A apropriação de bandeiras de luta que as torna rentáveis, e esvazia assim seu conteúdo crítico e potencial transformador, é prática recorrente do Capitalismo. Mas usar isso pra deslegitimar vozes de militantes queer, LGBTs, feministas, ou de outros movimentos sociais é procurar pelo em ovo! Queer é ponte, é travessia, é o que liga, é um ato constante de ‘rasgar-se e remendar-se’, pra usar as palavras do melhor escritor da literatura brasileira, Guimarães-Rosa. Como o protagonista Riobaldo, que não era exatamente um jagunço heteronormativo, desça do seu cavalo e olhe para as pessoas com quem você conversa, ouça, e reflita. Essa pressa em criticar aquilo que mal conhecemos nos leva a armadilhas perigosas. Há que primeiro entrar em contato, se abrir, antes de construir muros fronteiriços que delimitam alteridades numa escala entre-margens.

 

 

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