[relato de Verônica Rodrigues]

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Ação!

Hoje eu finalmente vi o Filme para qual eu fiz um teste, o mais difícil de minha vida (fui provocada a fazer coisas que até então eu só tinha feito entre quatro paredes com meu namorado). Passei neste teste, fui selecionada para ser a personagem titulo de um longa-metragem e acabei vivendo um pesadelo, muito pior do que ter o set, no qual vc é uma das cabeças-chaves de produção, sabotado horas antes de abrir câmera. Do que estou falando? Estou falando de ser contratada para simular cenas de sexo para um filme. Isso aconteceu comigo e eu aceitei o desafio, porque gostei do roteiro, porque acreditei no trabalho, porque sempre tive muita liberdade pra lidar com meu corpo desnudo, tendo participado de vários trabalhos envolvendo o nu, desde modelo vivo para Belas Artes, em peças de teatro, modelo fotográfico, até como obra de arte exposta no Museu Oscar Niemeyer quando foi inaugurado. Ficava lá 3 horas por dia, fazendo uma releitura das 3 graças de Rafael, sendo admirada e observada como um objeto, um quadro, uma escultura, só que não, era eu, meu corpo, minha moral, minha imagem.

Na sociedade machista e moralista na qual vivemos, não é difícil vc dimensionar o preço que se paga para ter tanta liberdade e disponibilidade para mostrar aquilo que todo mundo nega, que todo mundo condena, mesmo sabendo que todos nascemos nus e frutos de um ato sexual. Enfim…Fato é que eu acabei não fazendo o filme. Um dia antes de filmar minhas cenas, no total eram umas 5, 7 cenas envolvendo sexo, eu disse que não faria aquilo que estavam me pedindo, após o único ensaio com objetos de cena e o ator vestindo cueca, os outros 4 ensaios foram num palco nu de um teatro sem graça com o ator vestindo calça jeans. A personagem gostava de se filmar, mas quem pediu uma câmera para a preparação de elenco fui eu e não a preparadora. Eu sou, além de atriz, preparadora de elenco e tenho um respeito profundo por cada ator que trabalha comigo, seja ele uma ponta, personagem principal, o que quer que seja. Acredito que todas as peças de uma obra sejam importantes e tenho um cuidado especial com crianças e atores que farão cenas delicadas.

Eu tinha várias cenas delicadas para fazer, e a preparadora resumiu seu trabalho comigo em me mostrar um filme onde todos os atores faziam sexo de verdade e enfatizou que se eu e o ator estivéssemos dispostos a fazer sexo mesmo, não teria problema nenhum. rs. Parece piada, mas não foi. O roteiro dizia que eu deveria fazer X coisas, mas um dia antes de filmar, a preparadora me disse que eu teria que fazer outras coisas, como sentar nua em cima de um pênis duro de viagra. Detalhe, foi a preparadora quem disse, não o diretor, que nos deixou 45 minutos esperando para o ensaio, alguém ligou pra ele depois de um tempo e ele disse que estava no dentista, acredita? Disse que o ensaio poderia ocorrer sem a presença dele, sendo que no dia seguinte estaríamos todos empilhados num quarto sujo de hotel de quinta, filmando as cenas de sexo que ele tanto queria. Eu disse que poderia chorar dizendo a única frase que tinha pra dizer no filme, eu queria trazer profundidade para a personagem, eu disse que poderia chupar o dedão do ator, eu disse que poderia ficar de ponta cabeça enquanto ele” me comia” , mas sentar num pênis duro de viagra eu não faria. Não naquelas condições, não sem a presença do diretor me justificando a necessidade daquela cena que não estava descrita no roteiro.

Adoro fazer preparação de elenco com não atores, onde tenho a possibilidade de compartilhar meus métodos, atores profissionais adultos eu só oriento e trato de atender suas necessidades e facilitar sua vida, deixá-los tranquilos para fazer o que sabem, afinal, se é ator, sabe se preparar, ou quando o trabalho exige algo mais complicado com sotaque ou uma vivência específica, então o que me sobra como preparadora? Passar referências, acompanhar ensaios e exigir que o diretor esteja lá no ensaio junto dos atores, sobretudo nos ensaios que precedem as filmagens. É o mínimo de respeito que um diretor tem que ter com seus atores, que, na maior parte das vezes, estão ganhando cachês ridiculos. Ou seja, no cinema, a maior parte dos envolvidos está ali por amor, por investimento na carreira, por paixão pela sétima arte. Mas um diretor que deixa uma atriz que vai ter que simular sexo em seu filme, sozinha no ensaio com uma preparadora despreparada para lidar com sua insegurança, sim, eu fiquei mega insegura, este diretor não merece minha exposição.

Edson Bueno mereceu, fiz Satyricon para ele e ficava nua em pêlo, invadia a plateia, mas ele me preparou para isso, horas e horas, agora um diretor embusteiro que joga na mão de outro a função de me dizer o que eu deveria fazer em seu filme que não estava no roteiro, este diretor não merece minha exposição. Lembro que saí deste último ensaio chorando, me senti violada, ultrajada, sobretudo quando o ator com quem eu contracenava gritou comigo dizendo que ele “era homem e dai?” Sendo que eu disse que era mulher defendendo meu ponto de vista para não fazer aquela cena. Lembro de perguntar se ia ter tapa-sexo. Lembro de perguntar muitas coisas , mas não existiam respostas, só existiam ataques dizendo que eu não tinha maturidade para fazer aquele papel! Daí eu me pergunto: Será que era eu que não tinha maturidade para fazer aquele papel? Eu, quando preciso apanhar em cena, peço que me batam, se preciso beijar, peço que me beijem, não sou uma atriz técnica, sou visceral, quem me conhece, sabe disso. Respeito e admiro os técnicos, mas jamais vou respeitar um ator que me diz que “é homem e daí”, esquecendo todo contexto histórico de uma sociedade patriarcal e todo processo de objetificação da mulher, grita na minha cara que eu não tenho maturidade, que é advogado (o ator em questão também é advogado) e poderia cancelar a multa por quebra de contrato, já que eu estava me negando a fazer a cena e estava prejudicando o filme.

Parece piada de mau gosto, mas não é. É violência real praticada por colegas de profissão. Enfim…. vendo o filme apenas constatei o que já sabia: nenhuma atriz faria aquelas cenas que ele tanto queria, a atriz que me substituiu não fez e se fez pediu para não entrar no filme, não vi nada. Talvez a única atriz que pudesse fazer o que ele queria, talvez tenha sido eu mesma, mas não houve respeito, cuidado e argumento suficientes para que eu as fizesse. Não houve o principal: meu consentimento, e tudo que não tem consentimento é estupro, basta ver O Ultimo Tango em Paris e ler os relatos da atriz que não teve a mesma sorte de entender que estava sendo levada para uma cilada. Enfim… encerro aqui o meu relato e peço que parem de usar meu nome para falar sobre maturidade para fazer cenas picantes em aulas e rodas de cinema. Comecem a falar sobre maturidade e honestidade dos diretores que querem cenas picantes em seus filmes, sobre maturidade e cuidado dos preparadores de elenco, ou simplesmente comecem a contratar profissionais do sexo e não atrizes para fazer o que vcs querem, ok? Estamos combinados?

Corta!

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