[por Marina Costin Fuser]

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“Você não é si mesma” (Barbara Kruger)

 

Um texto de Laura Callaghan publicado no New York Times abordou uma questão espinhosa que vem me incomodando bastante, e confesso que muitas vezes não sei como lidar: a competição entre mulheres. O artigo serviu como uma luva para refletir sobre esses desafetos nos espaços de militância feminista, que nem sempre são espaços acolhedores. Foi recomendação de uma participadora-observante desses espaços que se identificou com um desabafo que fiz recentemente nas redes sociais. Passo a bola pra Callaghan, e já peço desculpas de antemão pela minha tradução espontânea:

“Mulheres competem entre si, se comparam, diminuem e passam a perna umas nas outras – pelo menos esta é uma concepção impactante na maneira como aprendemos a interagir. Chama atenção quando mulheres famosas com o Amy Schumer, a Beyoncé, e a Taylor Swift reconhecem que as outras são talentosas, e trabalham juntas sem necessariamente se alfinetar. Isso faz delas minhas heroínas feministas. Pra muita gente é comum sentir que é preciso se preservar contra as más línguas de outras mulheres e isso é desgastante. Passei anos me desgastando, tentando entender como outras mulheres que poderiam ser minhas grandes aliadas se tornaram minhas adversárias mais vis. Muitas leitoras me pediram conselhos sobre como lidar com a excessiva desconfiança entre mulheres, então sei que não estou sozinha.”

A competição entre mulheres é mais velha do que minha avó, ou do que a avó da minha avó, mas segue sendo um dos pilares fundamentais do Patriarcado. A ideia de que mulheres não devem falar alto, devem manter a compostura, ser discretas, delicadas e seguir o protocolo particular de um determinado círculo social figura entre as sinopses dos mais ilustres manuais de etiqueta. As rebeldes que ousam desafiar estas antiquíssimas regras de conduta acabam se tornando alvo de fofoca, golpeada pelas línguas afiadas das demais que se esforçam para manter as aparências e se ajustar aos padrões normativos de sociabilidade permitido às mulheres. Embora nem todos os círculos sociais reproduzam padrões de feminilidade dignos das escolas de princesas, transgredir os padrões provoca estranhamento até mesmo nos círculos mais progressistas, feministas, queer, etc. A saber, não estamos acostumadas a lidar com diferenças.

No caso da competição entre mulheres, o estranhamento pode ser ainda mais nocivo quando vem à tona a semelhança. O que incomoda não é tanto uma pessoa desconhecida que se conduz de modo fora do padrão, mas quando esta pessoa desconhecida e fora do padrão se destaca. Os cochichos indecorosos, e o riso jocoso frente ao fracasso de uma outra mulher a se ajustar a padrões não provoca tanto alarde quanto a chegada de uma mulher que recusa os padrões e se destaca mesmo assim: a gorda atraente, a intelectual periférica, a médica trans, a chefe negra, etc. Tem-se a impressão de que o brilho de uma mulher fora do padrão ofusque as demais, e isso é recebido como um ultraje: torna-se assunto dos corredores e das redes sociais, a manchete das fofocas não publicáveis.  Mulheres balbuciam todo um corredor semântico de defeitos sobre aquela estranha no ninho que chegou chegando.

“Chegar chegando” provoca um alvoroço porque muitas mulheres se esforçam pra falar baixinho, pra manter as aparências, pra não ser aquela da qual suas amigas falam. A quebra de decoro só é permitida a pioneiras, mulheres que se provaram dignas do cânone, mas nunca aquelas que acabam de chegar. Nos esquecemos num estalar de dedos que quem chega, chega de algum lugar. Quem chega leva consigo sua bagagem, seu corpo, marcado por experiências que desconhecemos no momento da chegada. É preciso se aproximar desse corpo, conversar, olhar nos olhos, se deixar levar pelo tempo do corpo em se abrir para o outro. Este contato relacional e sincero não é algo que é dado no primeiro tropeço daquela mulher com quem temos “um pé atrás”. É processo, é devir, é coisa de anos, de desfazer hierarquias imaginárias para entender o que essa outra diz. Tento criar esse tipo de relação, muitas vezes sem sucesso, pois sou estabanada e tropeço, mas sigo caminhando.

Vim de um lugar onde fui bastante privilegiada, por ter a pele clara, ser de classe média, filha de intelectuais, e tive acesso a uma universidade onde fui orientada pela maior especialista em gênero do departamento de Sociologia. Mas minha história de vida é bem mais espinhosa do que isso. E esses espinhos que até hoje me fazem sangrar me levaram à militância feminista no fim de 2006. Eu cursava o segundo ano de ciências sociais, e fui atrás da Marcha Mundial de Mulheres, devorei livros sobre gênero e classe, mais tarde completei o tripé com a dimensão racial. Minha própria sexualidade foi questionada: que desejo atravessa meu corpo? Levei dez anos para sair do armário. Dez anos! Com efeito, a militância feminista foi inspirando novas paixões e uma miríade de dúvidas.  Meu desligamento do grupo que ajudei a fundar me levou a um desejo de aprofundar o conhecimento sobre teoria feminista. Senti que minha militância seguia uma dinâmica pragmática, e eu queria respostas. No mestrado eu já escrevia sobre a mulher na dramaturgia, sobre caminhos embriagados por Hilda Hilst. Foi outro mergulho, quiçá o mais apaixonado que eu já ousei. Embarquei no universo teatral, no feminismo da diferença, no pós-estruturalismo e na poesia. Destes estudos surgiu um novo projeto: eu queria mesmo estudar a mulher no cinema. Fiz o projeto, prestei e fui aprovada no departamento de cinema de uma universidade inglesa, num programa interdisciplinar de estudos de gênero. Tive que aprender tudo de novo, mas o que mais dói é não poder mais usar minhas metáforas, não sem explicar o que elas significam (o que pra mim não faz sentido).

Mesmo com todas as dificuldades, quando voltei do meu doutorado-sanduíche em Berkeley (na Califórnia), acabei me destacando numa conferência organizadas pelo nosso núcleo de pesquisa, o NGender. Foi um momento de glória, onde fui abordada por outras pesquisadoras que me dedicaram os mais pomposos elogios: todos, menos as mulheres inglesas do meu departamento. Por mais que me agrada o reconhecimento pelo meu trabalho, não pude conter minha tristeza: por que raios as inglesas que tocaram a conferência comigo não foram capazes de me dizer sequer uma palavra? Depois disso vieram as hostilidades: sobre partes específicas do meu corpo, sobre meu sotaque, sobre minha sexualidade, sobre meu jeito estabanado de catar milho no teclado. Até que na minha vez de apresentar o capítulo que estava desenvolvendo, duas pessoas começaram a dar gargalhadas quando meu DVD falhou. Meu amigo brasileiro estava sentado ao lado das duas, ouviu os comentários e gritou: “Você é racista!” – e saiu, furioso. Ele é negro, e conhece racismo melhor do que eu. Encontrei solidariedade com cubanas, iranianas, indianas, nigerianos, brasileiros, homens e mulheres lidos como não brancos, em diferentes níveis. Passei a militar no feminismo pós-colonial, e éramos tantas mulheres, de tantos lugares lutando lado a lado… Mas fui me tornando infeliz naquela ilha fria, tive que lidar com depressão e síndrome do pânico.  Senti que havia um muro instransponível com a cultura anglo-saxônica. Voltei antes de  me doutorar, para concluir a tese no Brasil.

No Brasil me dei conta que de uns tempos pra cá, o cinema abriu espaço para discussões feministas. Descobri isso quando apresentei um trabalho para um simpósio sobre mulheres no audiovisual a convite do Coletivo Vermelha. Isso mexeu comigo de forma bastante profunda. Me animei para participar de projetos, criar projetos, movimentar e mobilizar a mulherada do cinema. Cheguei chegando, sem fazer cerimônia, ouvi, falei, me envolvi. Sem tesão não há transformação de mundo possível, e de repente a coisa foi tomando corpo, surgiram novos projetos, cursos, gente que nunca me viu na vida mas logo me acolheu de braços abertos. O acolhimento brazuca é único no mundo, e isso regenerou minha alma. Até que de repente  reparei que algumas mulheres me viam com certa suspeita. Suspeita por aparecer demais, pelos excessos, pelas intensidades que incomodam, pelos questionamentos, pela minha indecorosa falta de discrição. Às vezes tentei ignorar a cara feia, e fui tocando o barco porque não dá pra se deixar intimidar por causa de reles caretas. Mas ninguém tem sangue de barata: não dei a outra face. Houve momentos em que não me contive. Soltei os cachorros, me excedi, gastei tempo do meu dia dando murros em ponta de faca. É desgastante discutir com quem te trata como adversária, como se seu brilho ameaçasse ofuscar o delas. Minha luz nada mais é do que tesão, vontade de lutar pela equidade de gênero e por um cinema menos machista.

Luz é intensidade, é algo que todas temos quando nos envolvemos de corpo e alma em algum projeto. Luz é cinema, é corpo, é projetar nossos corpos de mulher e nossas vozes em todas as etapas do processo criativo. Luz é o brilho nos olhos de quem se apaixona, por uma pessoa, ou por uma causa. Feminismo é feito de luz, feito de paixões, não só pela equidade de gênero, mas pelas mulheres numa acepção mais ampla. Contra a misoginia (ódio às mulheres), defendo a filoginia (amor às mulheres). Ao competirmos pra quem ocupa o centro dos holofotes, nos esquecemos da possibilidade de brilharmos juntas.

Volto ao artigo de Callaghan para concluir minha reflexão inconclusa:

“Nós não estamos de fato competindo com outras mulheres, mas em última instância, competimos com nós mesmas – ou com a maneira como nos enxergamos a nós mesmas, num espelho distorcido. Olhamos para outras mulheres e enxergamos uma versão melhorada de nós mesmas, mais bonitas, mais inteligentes, mais talentosas. Nós sequer enxergamos as outras mulheres. É um labirinto de espelhos distorcidos que reflete uma versão turva de quem somos, mas nos voltamos contra a outra mulher, pois é mais fácil nos eximirmos de nossas falhas. Mas não precisamos diminuir as qualidades de outras mulheres… Se focarmos nas potências imperantes no nosso universo interior em vez de tentar marcar território, todas ganhamos.”

Link do artigo da Laura Callaghan:

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